quarta-feira, 20 de março de 2024

Um amor caído do céu

 






Vou contar a história de um amor improvável.

Ele era um borracho, aprendendo os primeiros passos, despenando as rotas, seguindo o assobio do vento ao lado dos seus irmãos.

Um dia, nessa jornada, ele se perdeu na neblina e pousou numa ravina à beira do mar, exausto, ferido, adormeceu encolhido pelas frias brisas...

 

Uma gaivota de perna arregaçada se aproximou...

Foi amor à primeira vista...

A gaivota cuidou do futuro pombo, levou-o para o seu ninho, deu-lhe no bico o seu peixe favorito...

O borracho recuperou as forças e a esperança de baloiçar novamente suas asas.

 

Os dois compartilharam os afazeres das penas.

Ensaiaram… no almofadado chão das nuvens os levantes e os pousares.

Ergueram juntos, um novo cantar.

 

Um dia, o borracho se tornou pombo.

Um dia olhou para o céu e viu um bando e voou em sua direção...

Nesse dia, a gaivota perdeu a vista e o seu coração.

O seu amor nunca mais voltou...

Seu peito tornou-se uma caixa vazia sem o seu pombo-correio.

 

Agora, todas as manhãs, aquela gaivota espera o retorno da sua alma, no mesmo lugar da largada …”enrochada” de mágoa …

Ela esgota os possíveis olhares, olhando à sua volta em busca de um possível regresso do seu amado.

 

”enrochada” - Palavra inventada, para descrever a saudade fóssil de uma ave  


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