sábado, 23 de maio de 2026

No quintal do vento


 





Como loucos,

insistimos

em semear flores

na areia da praia,

sem sermos marinheiros

nem amantes das vagas.

 

Depressa

fizemos da chuva

as nossas lágrimas,

por ver as sementes

brotarem desamores

e rochas bravas.

 

Como diria o velho pescador:

quem manda no areal

é um casal

com nome de mar e de vento;

só eles podem

jardinar o seu quintal.

 

Esta tarde,

por acaso,

voltei àquele lugar.

Estranhamente,

vi dois jovens

querendo voar,

agarrados a um beijo.

Acho que vão ser tão loucos

como nós fomos.

 

Ainda recordo

quando pendurámos

aquele abraço

para nos salvarmos

da delicadeza

do inverno.

 

Tínhamos o peito quente,

forrado de amor,

e todo um mar parado.





sexta-feira, 22 de maio de 2026

No fundo das montanhas

 






sentimento

sentido

sem sentido

indo

numa

rota

de sentido

único

longe

das primeiras

escolhas

 

andámos muito

 

descobrimos que as montanhas mais altas

estão submersas pelo mar que se chora

 

descobrimos que não existe refúgio

no pico dos nossos olhos

sem o outro ao nosso lado

 

somos culpados

por todos os passos

dados

sem sairmos

do lugar

 

afogámos o amor

com o desejo e a saudade

sem sequer

aproximarmos

os lábios

para o reanimar





quinta-feira, 21 de maio de 2026

Dividir a saudade em saudade boa e saudade má

 





O saldo da solidão

só aumenta

desde

o primeiro dia

da tua ausência.

 

Uma dívida

herdada

após a tua

partida.

 

Sem a possibilidade

de a pagar,

apagar,

excluí-la

do cofre

do coração.

 

Talvez

recordar a tua felicidade

seja uma forma

bonita

de a amortizar…

 

Mesmo sabendo

que o saldo negativo

é demasiado

para saldar,

com sorrisos involuntários

do nosso,

alegre passado…


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Transfronteiriço

 





olha para os obstáculos

como portas abertas,

faz das fronteiras

passadeiras de novidade.

 

e vai.

 

lembra-te:

passará a corrente

quando abres os braços

e estendes as mãos.

 

haverá coração,

ponte,

nós de corda,

porta…

passagem,

quando fazes da compaixão

a tua maior lição.


sábado, 14 de fevereiro de 2026

Passos que não esperam




caminhos,

esperas,

regressos,

atrasos.

 

o valioso

tempo

apressa

as quietudes,

a certa hora,

antes

que chegue

a tarde

da nossa história.

 

vai,

foge das desistências,

dos impasses,

e não demores.

 

é preciso acumular

momentos de felicidade,

independente dos trajetos,

das quedas,

dos desafios.

 

só sabemos valorizar

o caminho de volta

se enfrentarmos

o desconhecido.

 

vai,

foge dos atalhos,

corre nas estradas

e usa o coração

como estradão.

 

atrasa-te,

se estiveres contente.

e volta logo

se o céu mudar

a cor dos teus olhos.




 

Caminhar na Direção do Sol

 






o valor da fé

de quem caminha a pé,

e traz consigo, atrás,

a prova do amor divino.

 

esse amor

capaz de regar

uma flor

com um mar de lágrimas,

e ressuscitá-la,

fazendo-a a mais bela

aos nossos olhos.

 

independentemente das adversidades,

continuaremos

a caminhar na direção

do sol que acalma o rebanho,

e que nos faz sopro

de um Deus mais humano.

 

chegaremos

com os pés feridos

e o coração curado.